Blog do Professor Rafael Porcari

observações e manifestações do Prof Rafael Porcari sobre os diversos temas atuais. Debata e Comente os assuntos, vamos desenvolver nosso espírito crítico!

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Arquivo de: Maio 2008, 07

07.05.08

Como os EUA garantiram o Presidente Brasileiro

Amigos, na última terça-feira, dia 06, o jornal Valor Econômico, no Primeiro Caderno, publicou uma matéria interessantíssima sobre como o governo americano negociou o "aceite" do presidente Lula. A matéria corrobora a opinião daqueles que tinham restrições sobre o desejo dos Estados Unidos sobre a América Latina frente a um governo esquerdista na maior nação do bloco. Realmente, segundo o jornal, o governo brasileiro teve que "pedir a benção" à Casa Branca. A repercussão foi pequena, mas reproduzo aqui o assunto para o conhecimento coletivo (abaixo, um resumo):

 

Embaixada assegurou aval dos EUA a Lula
Ricardo Balthazar, Valor Econômico

A boa vontade da Casa Branca contrastava com a apreensão que Lula ainda despertava em Wall Street. No mesmo dia em que ele falou com Bush, a chegada dos petistas ao poder foi apontada como uma fonte de instabilidade para a economia mundial numa reunião do Federal Reserve, o banco central americano, segundo transcrições divulgadas recentemente.

Havia razões de natureza política para o aval de Bush a Lula. A ascensão de líderes esquerdistas como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, era considerada uma ameaça para os interesses de Washington na América Latina, e estabelecer uma relação amistosa com os petistas desde o começo podia ser também uma maneira de conservar a influência dos EUA na região.

Os documentos obtidos pelo Valor sugerem que os petistas procuraram se diferenciar dos vizinhos para manter a credibilidade recém-conquistada. Em outubro de 2005, o ministro Palocci disse ao então subsecretário de Estado dos EUA Robert Zoellick que estava preocupado com o "populismo" na América Latina e citou apenas Brasil, Chile e Uruguai como países que seguiam políticas econômicas responsáveis na vizinhança.

Mas as freqüentes divergências entre os petistas continuaram causando desconforto nos EUA por muito tempo, mesmo quando a economia brasileira parecia ter voltado aos trilhos. Em maio de 2004, pouco antes de deixar seu posto em Brasília e trocar a diplomacia pela iniciativa privada, Donna (embaixadora dos EUA) escreveu num telegrama para Washington que Palocci era uma "exceção" entre os assessores de Lula.

Na sua avaliação, a maioria dos aliados do presidente continuava pressionando-o a assumir um papel mais ativo na economia, criando incômodo para muitas empresas. "Essa inclinação fez proliferar novas barreiras para investidores", disse Donna, citando como exemplos as mudanças promovidas pelo PT nas agências reguladoras e nas concessões do setor elétrico.

Um dos interlocutores da embaixada afirmou que nada iria mudar, mesmo se Lula fosse afastado da Presidência, Palocci caísse ou Meirelles fosse para casa. Segundo o contato dos americanos, o governo Lula havia demonstrado a existência de "um consenso nacional sobre o que deve ser a política econômica", e qualquer um que viesse depois seria obrigado a fazer tudo igual. Como em 2002, ninguém parecia ter medo de mais nada.

Lula fez questão de estabelecer diferenças entre ele e outros líderes latino-americanos. Ao discutir a situação política em Cuba e sua amizade com Fidel Castro, pediu a Donna que não interpretasse seu apreço pessoal pelo dirigente comunista como um sinal de aprovação ao regime cubano e admitiu "que não havia liberdade em Cuba hoje".

Conquistar a boa vontade dos americanos era crucial para o novo presidente naquela altura. "Sabíamos que íamos enfrentar uma situação muito difícil no primeiro ano de governo e manter uma relação normal com os Estados Unidos era muito importante", disse José Dirceu ao Valor, numa entrevista recente. "Abrir uma frente externa que se transformasse num problema era a última coisa que precisávamos."

As eleições brasileiras de 2002 foram acompanhadas com ansiedade em Washington, num momento em que a América Latina parecia ter voltado a ser um foco de instabilidade. A Argentina mergulhara numa profunda crise política e econômica com o fim do regime de câmbio fixo no país. Na Venezuela, Chávez estava em guerra com a oposição, que em abril tentara tirá-lo à força do poder e fracassara.

Nos dois casos as ações do governo americano contribuíram para esfriar seu relacionamento com a região. Os EUA foram o primeiro país a reconhecer como legítimo o governo provisório instalado na Venezuela após o golpe de abril, que durou menos de 48 horas. E os americanos levaram vários meses para aprovar um pacote de socorro financeiro do FMI para a Argentina.

A ascensão de líderes esquerdistas como Lula e Chávez assustava a direita americana. Dias antes do segundo turno no Brasil, um grupo de 27 congressistas do Partido Republicano mandou uma carta ao presidente George W. Bush para dizer que um novo "eixo do mal", constituído por Lula, Chávez e Fidel, representaria uma ameaça séria para a segurança dos EUA.

Ocupado com a guerra no Afeganistão e os preparativos para a invasão do Iraque, Bush não tinha tempo para prestar atenção na vizinhança. Mas o seu homem na região, o secretário-assistente de Estado para a América Latina, Otto Reich, um cubano-americano que no passado ajudara a combater os sandinistas na Nicarágua, estava bem preocupado com o que via.

Ele viajou para o Brasil em julho para tomar pé da situação. "Algumas pessoas vieram nos dizer que não podíamos deixar Lula virar presidente", disse Reich ao Valor. "Havia também alguns brasileiros nos dizendo que ele seria perigoso", acrescentou. "Mas não havia o que fazer e tomamos a decisão consciente de que não iríamos nos envolver."

As desconfianças que os americanos tinham de Lula foram eliminadas aos poucos. Dirceu foi a Washington e Nova York para manter contatos com investidores e autoridades em julho. Donna, que conhecera Dirceu e outros dirigentes petistas na década de 80 e tinha profunda admiração pessoal por Lula, ajudou a desanuviar o ambiente mostrando a Washington que não havia por que temer Lula.

Reich só começou a se convencer disso quando as urnas já estavam fechadas. Em novembro de 2002, ele encontrou-se com Lula em Brasília e passou quase três horas reunido com três de seus principais colaboradores, Dirceu, o futuro ministro Antonio Palocci, que na época coordenava a equipe de transição do novo governo, e o senador Aloizio Mercadante. "Foi ali que percebi que dava para trabalhar com eles", disse Reich ao Valor.

Valor Econômico, 6 de maio de 2008

O Melão Tentador

Amigos, compartilho o brilhante texto do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, a respeito do Árbitro de Futebol:

(extraído de http://veja.abril.com.br/051005/pompeu.html)

 

O Melão Tentador,

Variações em torno desse singular exemplar do gênero humano que é o juiz de futebol :

 


Antes, eles só se vestiam de preto. Já no uniforme se denunciavam como figuras cavernosas, urubus azarentos, anjos maus do luto e do agouro. Depois, assim como os padres, foram liberados do traje funéreo. E os juízes de futebol passaram a se apresentar com camisas e calções de outras cores. Numa outra e mais revolucionária mudança, e ao contrário do que acontece entre os padres, mulheres passaram a ser admitidas em seu meio. Uma coisa, porém, não mudou por mais que as camisas sejam azuis ou amarelas, em vez de pretas, e as coxas sejam roliças e suaves, em vez de ásperas e peludas. O juiz é um salafrário. Todo juiz é culpado até prova em contrário. Pensando bem, é culpado mesmo com prova em contrário.
Já quando ele entra no gramado, é recebido com vaia. Não há caso similar, em nenhuma outra atividade humana. É a "vaia preventiva", como bem chamou o colunista Luiz Zanin, no Estado de S. Paulo. Os minutos que antecedem o jogo são festivos. Ninguém ainda tem motivo para queixa. As torcidas cantam. Paira no ar aquela eletricidade em parte feita de alegria, em parte de tensa expectativa. Então desponta em campo "sua senhoria", como era chamado, ou talvez ainda seja, pela crônica esportiva, e desaba sobre ela, bem como sobre os bandeirinhas, que a escoltam, uma vaia estrondosa, avassaladora, acachapante. É o único momento em que o estádio todo se une. Durante o jogo o juiz será vaiado por uma ou outra torcida, mas agora são as duas juntas, e mesmo os eventuais neutros, e talvez até os estrangeiros presentes sem outro propósito senão fazer turismo, que se irmanam num desmoralizante uníssono. Trata-se de um dos mais antigos e mais sagrados rituais do futebol. Ele não fez nada ainda, nem de certo nem de errado. Por isso mesmo, merece vaia.
A quadrilha dos gramados denunciada na última edição desta revista pôs em evidência essa extraordinária variante do gênero humano que é o juiz de futebol. Que culpas, que necessidade de expiações colossais leva alguém a abraçar tal profissão? Um comercial de televisão de pouco tempo atrás mostrava Ronaldinho Gaúcho, ainda menino, metido num uniforme de juiz e de apito na boca. "Eu não queria ser jogador, queria ser juiz", dizia ele. Até que um dia chutou uma lata de refrigerante e descobriu sua verdadeira vocação. O comercial provocava pasmo e hilaridade, menos pelo paradoxo de um craque, e um craque do calibre de Ronaldinho Gaúcho, estar a apregoar que queria mesmo era ser juiz, mas, mais ainda, pelo fato de um garoto dizer que queria ser juiz. Não há isso. Juiz de futebol é profissão com a qual não se sonha na infância.
Um juiz pode ser honestíssimo, a grande maioria deles sem dúvida é honesta, mas o protótipo da classe, irremediavelmente, é o juiz ladrão. Sobre esse personagem correm, desde os primórdios do futebol, lendas espantosas. Há a história do juiz tão ladrão, mas tão ladrão, que se vendeu para os dois lados, e passou o jogo todo roubando descaradamente, ora para um time, ora para o outro. Aparentada a essa é a do juiz tão ladrão, mas tão ladrão, que os times costumavam juntar-se e pagar-lhe um contra-suborno, para que não roubasse.
No atual escândalo, dignos de entrar no repertório são os casos em que o juiz Edilson Pereira de Carvalho confessa que não conseguiu roubar como queria. No jogo Juventude x Figueirense, ele devia fazer o Juventude ganhar, mas ganhou o Figueirense – 4 a 1. "O Edmundo jogou demais", desculpou-se. No jogo Santos x Corinthians, o serviço devia ser feito para o Corinthians, mas ganhou o Santos – 4 a 2. As escutas telefônicas revelam um Edilson abatido com o fracasso e ansioso por se recuperar no jogo seguinte. Estava em jogo sua reputação. Ele não podia suportar o vexame da inépcia na prática da ladroagem.
O juiz desonesto, nos tempos heróicos do futebol, era chamado pelo romântico qualificativo de "gaveteiro". No futebol de São Paulo, fama de gaveteiro por excelência coube durante muitos anos a um personagem célebre em seu tempo, João Etzel Filho. É atribuída a ele uma história aproveitada no filme Boleiros, de Ugo Giorgetti, aquela em que o juiz cansa de mandar repetir um pênalti, batido por um jogador inepto, e decide, ele próprio, impedir aquele jogador de tentar de novo. Que o time arrumasse outro cobrador. Etzel não chegou a admitir que roubava, mas se vangloriava de saber apitar "politicamente". Seja lá isso o que for, não deve ser boa coisa.
Uma vez, durante um jogo Palmeiras x Portuguesa, um torcedor junto do alambrado insistia em chamar a atenção de Etzel para um melão que tinha na mão. O juiz olhava para o torcedor e este lhe apontava o melão. Olhava, e lá vinha o melão. Terminado o jogo, Etzel foi perguntar ao homem que diabos significava aquilo. O torcedor explicou: dentro do melão estava escondido um dinheiro para sua senhoria. Etzel, ao contar essa história, dizia que reagiu indignado e denunciou o caso à federação, mas sabe-se como é – melão, assim como mensalão, só se oferece a quem se sabe de antemão que tende a apreciá-los.

Arrozais, Indígenas e a Terra

O novo assunto dos últimos dias tem sido a crise envolvendo os índios e plantadores de arroz no estado da Roraima. Uma disputa da posse da terra da reserva Raposa / Serra do Sol é o mote da discussão. Os índios defendem que a terra é deles, e deve ser parte das reservas indígenas demarcadas há pouco tempo. Os agricultores alegam que a terra nunca deverá sair de suas posses, que os campos são cultiváveis e que seria um absurdo desapropriar uma área produtiva e transformar em reserva. O governador de RR, José de Anchieta Jr, declarou que os índios estão completamente loucos por reivindicar tais áreas. O pedaço de terra corresponde a uma área das mais férteis do Brasil, produz 2,5 safras de arroz por ano e representa 7% do PIB daquele estado, segundo o governador à Rádio Bandeirantes AM, durante entrevista ao jornalista José Nello Marques.
Entretanto, há outros pontos de conflito que envolvem essa questão. A área desejada pelos índios é a mesma de um levantamento feito sobre o mapeamento das riquezas minerais do solo da Roraima. Além disso, há uma briga feroz envolvendo índios católicos e índios neo-pentecostais (acreditem, estão tão aculturados que se esqueceram de Tupã!). Por fim, esses dois grupos se dividem na questão de como “comercializar" os produtos da extração / exploração das terras de reservas indígenas.
Índio não quer apito, índio quer money. Eles têm direito à terra, pois nossos ancestrais tomaram suas propriedades na colonização do país. Mas será que é dessa maneira a melhor negociação? Com invasões e violência?

Verba Pós-Morte

E já que os assuntos de hoje predominaram em Política, vale o registro: na próxima semana, o Congresso Nacional votará uma verba extra para os familiares dos deputados em caso de morte, já que, segundo o Presidente da Casa, deputado Arlindo Chinaglia, "também tem deputado pobre no Brasil!" O projeto foi batizado de Auxílio Funeral, e prevê que todos os gastos com o enterro sejam bancados pela união, e uma quantia indenizatória para os familiares.

Até morto o deputado acaba onerando os cofres públicos...

Quem é a elite, Paulinho?

O deputado federal pelo PDT-SP, Paulo Pereira da Silva, o “Paulinho da Força Sindical”, presidente de uma das maiores entidades sindicais do mundo, foi flagrado pela operação denominada “Santa Tereza” da Polícia Federal. O seu envolvimento, segundo a PF, está ligado a desvios de verbas do BNDES. Seu advogado foi preso, e em um grampo telefônico, obteve-se a declaração do nobre parlamentar de que “através de sua influência conseguiria a soltura do advogado”. Pois bem. Há dias, todos os jornais que o acusam, acabaram sendo processados por calúnia. Agora que a PF mostra tais fatos, como fica a idoneidade? O problema é que ele tem foro privilegiado por ser deputado, e não pode ser julgado pela Justiça, só punido pelo Congresso Nacional, caso uma CPI corrobore com os trabalhos da Polícia.
De se lamentar o discurso de defesa de Paulinho: “Estou sendo perseguido politicamente (...) pois sou candidato à Prefeitura (de São Paulo). É culpa da elite que não gosta de trabalhador!”
Ué, quem é essa elite? E porque não gosta de trabalhador? Qual o interesse dessa “elite misteriosa” em prejudicar o Brasil? Por fim, porque não gosta de você? Opa: e o que isso tem a ver com o desvio de verba do BNDES?
Ora ora... A manifestação demagógica do parlamentar faz pensar que muitos políticos ainda acham que estão acima do bem e do mal, e que todos são bobos. Estas são nossas ‘otoridades’!