Blog do Professor Rafael Porcari

observações e manifestações do Prof Rafael Porcari sobre os diversos temas atuais. Debata e Comente os assuntos, vamos desenvolver nosso espírito crítico!

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Arquivo de: Maio 2008, 02

02.05.08

As Revoluções da Vida

O que mais pode parecer ser um paradoxo filosófico? Viver uma vida de revoluções ou fazer uma revolução na sua vida? Pois bem, tal complexo dilema foi respondido pelos alunos do Oitavo Semestre de Administração em uma atividade derivada sobre a aula de “Reinvenção nas Empresas”. Em síntese, o assunto foi a diferenciação de "Reinvenção e Reengenharia”, na visão de Tom Peters (um guru da Administração de Empresas), e trouxemos os exemplos profissionais para outros aspectos, como a vida pessoal em si. E a questão, transformando e condicionando a Reinvenção como Revolução, foi a seguinte: “Você pratica revoluções em sua vida?”.
Se durante a aula mostraram-se temerosos em radicalismos revolucionários, anonimamente em sua maioria mostraram-se corajosos e desafiadores. Desde problemas e desgastes profissionais até traumas e barreiras sociais, muitos mostraram a vontade da mudança e foram vencedores.
Reinventar-se; reimaginar-se; oxigenar-se. Enfim, fazer uma revolução na vida. Talvez não seria uma condição indispensável à nossa sobrevivência? Instigar nosso futuro, questionar nossa rotina e carreira como administradores?
Das respostas obtidas, tivemos aqueles que resolveram radicalizar e sair do emprego. Pagaram o preço do risco, mas se realocaram no mercado de trabalho e dizem ser felizes. Outros precisaram de ajuda profissional com terapia e tiveram sucesso; e isso é válido, afinal, não se faz revolução solitariamente. Outros relataram que reinventaram-se no casamento! Parabéns pela coragem. Há um aluno (ou aluna) que despertou curiosidade em dizer que ele é bom para “ajudar o próximo a mudar de vida, se isso quer dizer revolução, mas nunca foi ajudado para isso”. Ora, embora o espírito franciscano do nosso discente seja válido, é interessante lembrá-lo de que a revolução deve ter um start com ele próprio. Então, pense em você como "um próximo" e busque a felicidade profissional na sua auto-revolução, no aprendizado contínuo, no aperfeiçoamento e esforço não só na vida profissional mas também na acadêmica, social, e por que não, espiritual?
Encerrando, diante das boas respostas dos alunos, percebo que a freqüência das revoluções é o que menos importa. Importante, na verdade, é a intensidade das mesmas.

A Agrishow e a Produtividade do Campo

Está ocorrendo, em Ribeirão Preto, a Agrishow. É a maior feira agrícola da América Latina, e nela se tem a verdadeira percepção do poderio tecnológico e agrícola do Brasil. Na apresentação do evento, os números divulgados foram surpreendentes! Nos úlitmos 10 anos, a área de plantio de alimentos cresceu 19%, e a produção de alimentos, neste mesmo período, 100%. Isso deveu-se aos avanços em pesquisas de novas sementes, em parceria com a Embrapa, com os novos maquinários do campo, e só não foi maior devido a falta de mão-de-obra capacitada. Há carência desde a fabricação de tratores até a contratação de profissionais para operarem os equipamentos. Hoje, é esse o grande gargalo do campo.

A Importância das Redes de Relacionamentos

Em qualquer seara, ter bons contatos é importante. Melhor, se forem de influência agregativa e positiva! A busca de novos conhecimentos, de percepção de oportunidades, do aprendizado contínuo e da atualização e do ecletismo dependem muitas vezes de um simples bate-papo. Conviver com pessoas de áreas diferentes da nossa, debater com cabeças de formação cultural diversa, ou ainda, interagir em outras realidades, permitem novas visões e novos parâmetros sobre a vida.
Dessa característica de absorção se aproveita novas experiências, surgem convites, oportunidades de trabalho e situações inusitadas no dia-a-dia. O aceite ou não poderá dar rumos interessantes dessa interação. Positivos ou negativos, prazerosos ou frustrantes, mas sem dúvida frutos emocionantes da vivência.
Uma ilustração disso, que pode ajudar na exemplificação das redes de relacionamento e suas benesses, pode ser a situação que passei nesses últimos dias e que por motivo de extravaso compartilho. Como atuo em algumas áreas (comércio, docência e esporte), possuo contatos com pessoas das mais alternadas realidades: do culto ao matuto; do ateu ao fanático; do esquerdista ao neoliberal; do aprendiz ao ancião. Todos me ajudam a apreender mais. Aliás, todo dia de vida deve ser um dia de aprendizado.
Assim, recebi um contato para participar da gravação de uma matéria para o programa ‘Esporte Espetacular’, da Tv Globo, onde mostraria a vida de um árbitro e os bastidores dela, a dupla (ou tripla) jornada de trabalho ( a conciliação das atividades em meio as dificuldades) dentro desse mundo curioso e desconhecido ao torcedor comum. Para tudo isso, houve o envolvimento de pessoas das mais diversas áreas, como a adaptação de algumas rotinas de trabalho e compromissos profissionais, a anuência da Faculdade Sant’Anna para uma pequena filmagem com os alunos de administração, os trâmites necessários da Federação Paulista de Futebol para a gravação, entre outros. Infelizmente, a CEAF-SP (Comissão Estadual de Árbitros de Futebol) não permitiu a filmagem, proibindo a manifestação pública da figura do árbitro de futebol, já que há uma ordem expressa da casa para que se resguarde a imagem do árbitro de futebol, sendo vetada, há alguns dias, qualquer declaração dos “homens de preto”. Mesmo assim, vale o registro ilustrativo da situação, para exemplificar como uma rede de relacionamentos e a importância de um bom trânsito nas diversas áreas de convivência podem trazer oportunidades, contatos e frutos interessantes à vida de cada um. Novas janelas e inusitadas situações podem nos dar a chance que muitas vezes buscamos, além, é claro, de mais conhecimento e experiência de vida.

A Reserva de Cotas para os Negros

Ontem, a estudante negra Esteffane Pereira, presidente do DCE da Universidade Federal do Mato Grosso, apoiada por celebridades como a antropóloga Ruth Cardoso e o escritor João Ubaldo Ribeiro, entregou ao Supremo Tribunal de Justiça um documento de protesto com argumentos contra as cotas reservadas a negros em universidades. A própria mentora do protesto (que é negra, como citado acima), reclama que há um desvio de propósito com a medida, se a encararmos como questão de inclusão social. Segundo ela, a reserva de cotas deveria ser por motivo financeiro, não por raça (já citamos neste blog que deveríamos encarar como apenas uma raça existente entre os homens: a raça humana). E isso é verdade! Por esse sistema, um negro rico tem o privilégio de ter chances maiores do que um branco pobre. Não sejamos hipócritas dizendo que não existe discriminação racial. Mas esse não é o caso. O caso é social, não de raça.


O Árbitro, um Simples Bode Expiatório

Amigos, a expressão “bode expiatório” se originou do fato de que os judeus na Antigüidade sacrificavam um cordeiro a Deus, como ação simbólica da expiação de suas culpas. Na sabedoria popular, brincava-se de que quando não se tinha um carneiro para tal rito, o fazia com um bode. E sem ter culpa alguma, o pobre animal era sacrificado em lugar do verdadeiro “interessado”. Assim, surgiu a referência “bode expiatório” para alguém que sofre as conseqüências de uma culpa que não lhe pertença. No futebol, muitos bodes expiatórios surgem! Rodada a rodada (ou jogo a jogo), busca-se a isenção de culpas e transferências de responsabilidades. Ora uma atuação do goleiro, ora o gramado, a chuva, a altitude... mas corriqueiramente, o árbitro! Sem poder defender-se contra as línguas afiadas de alguns pseudo-desportistas (aqueles que se dizem ligados ao esporte mas não o encaram verdadeiramente como esporte – pois não sabem perder), o árbitro acaba sendo o culpado até mesmo antes do “acontecido acontecer”.
Tal observação surge devido a leitura de uma obra (Dança dos Deuses, de Hilário Franco Júnior, já citado aqui), durante uma viagem para a arbitragem de um jogo pela A3, acompanhado pelos colegas árbitros Eduardo de Jesus Conceição, Claudosn Lincoln Beggiato e Vinícius Furlan, além do sempre atento amigo motorista Misael. E pelo interesse comum que temos para com a arbitragem de futebol, compartilho tal texto para apreciação:

“Em cada partida de futebol, o bode expiatório é (...) colocado como o árbitro. No Brasil, sintomaticamente, os árbitros não entram em campo junto com os times, como na Europa. Eles são expostos às manifestações do publico antes de a partida começar, atraindo parte da energia destrutiva que a multidão possui. Enquanto símbolo de autoridade, são identificados com governos autoritários ou corruptos, freqüentes na nossa história, e de maneira sistemática são agredidos verbalmente pelas torcidas antes de mesmo de começar a trabalhar. De um ponto de vista sociológico, é como partir do pressuposto de que todo árbitro é corrupto. De um ponto de vista antropológico, é como se seu sacrifício prévio garantisse a tranqüilidade do rito posterior.”

Ou seja, em linguagem coloquial, o sublinhado se refere a: para o povo, o juiz é sempre ladrão. Antes do jogo começar, precisa-se fazer pressão para que tudo ocorra bem!

Obs: Na França, recentemente, há uma tentativa de mudança de imagem da figura do árbitro. Na Tv, a federação local veicula uma publicidade com um jogador ao lado de um árbitro, ambos uniformizados, com os dizeres: “não temos o mesmo uniforme, mas temos a mesma paixão”.

Funcionaria aqui?